NaS tEiAs Da DePrEsSãO

Domingo, Dezembro 19, 2004

O qUe Me FaZiA fEliz NeStE mOmEnTo?



Antes de mais acho que nos devemos interrogar: o que é a felicidade afinal?
Para uns pode ser tudo e para outros tão pouco… para uns, um bom carro, a conta do banco bem abonada, uma bela casa, um super emprego com um ordenado bem chorudo; Para outros, tão pouco… o nascer do sol, um pássaro a cantar, a melodia do vento por entre as árvores, a carícia da chuva no rosto, um aceno, um beijo, um sorriso. O seu cantinho, o silêncio, um bom livro, a lareira acesa com o lume a crepitar e a chuva a bater levemente nas vidraças, o vento a assobiar de mansinho na rua. Um amigo, uma boa gargalhada, um animal fiel e companheiro para nos receber ao chegar a casa. Um gesto, uma carícia, uma palavra.
Eu, sinto que me insiro nestes últimos, os que se contentam com pouco, mas com tanto…
Acho que gostava de ter um canto só meu, onde me pudesse refugiar, ler um bom livro, onde pudesse ter as minhas coisinhas.
Gostava de o partilhar com alguém? Gostava de passar pela experiência, afinal, é sempre bom ter alguém à nossa espera quando chegamos a casa, mas por outro lado, também queria um espaço só meu, que ninguém pudesse invadir, mas que, simplesmente, pudesse passar por lá e lá ficasse por momentos quando eu mais precisasse de companhia. Com o M? Talvez. Mas acho que ele não está para aí muito virado. Ele pertence ao primeiro caso de felicidade, mais ligado ao material. Por vezes, acho que somos tão diferentes. Diz que ainda é muito novo, que ainda nem sequer pensou nessa hipótese. Será possível que ao fim de cinco anos de namoro ainda não tenha pensado em tal coisa? Eu acho que não. Ele não pensa, não vê um futuro para nós. Para ele é simplesmente o agora. Não sei se para mim isso chega. Eu gosto de sonhar, de imaginar.
As nossas diferenças começam-me a incomodar. Não sei se será normal. Mas numa relação tinha sonhado muito mais para mim. Aquelas paixões de “cinema”, as palavras bonitas, os carinhos, as surpresas, os passeios, a sintonia, um olhar em frente, para o futuro. Falta-me aquele amor platónico, que tem aquelas pequenas grandes coisas que me fascinam.
Já li (algures) que há tendência na escolha de um parceiro que tenha traços do “agressor”, da figura paterna. É verdade que isto acontece frequentemente? Mas quais as semelhanças? Ele também é ausente, vive muito para si, sem muitas demonstrações de afecto.
Às vezes (e não são poucas as vezes) questiono-me se a nossa relação não estará a ultrapassar os limites do razoável, do saudável. Por incrível que possa parecer, quase não falamos. Por vezes as nossas conversas resumem-se a “- Diz qualquer coisa”, “- Não sei, diz tu”, “-Onde queres ir?”, “- Não sei, e tu?”, “- Também não sei”. E assim se passa o tempo, não dizemos nada e não vamos a sítio algum.
Os nossos momentos a sós, resumem-se a sexo. Fora isso, por vezes, até me sinto incomodada de estarmos sós. É normal? Eu acho que não.
E como perdi o desejo sexual, na maior parte das vezes, acho que o vejo mais como um amigo.
Uma das coisas que me faria feliz era ter alguém a meu lado mais comunicativo, mais romântico, mais divertido, mais parecido comigo, mas em versão masculina!
Conheço pelo menos uma pessoa que se “enquadra” neste “quadro”. Alguém por quem já tive uma grande paixão, mas na altura nada aconteceu, eu era novinha ainda (devia ter os meus 16 anos) e ele era mais velho que eu e as coisas nunca se proporcionaram e entretanto apareceu o M. Hoje em dia já pouco o vejo, mas o meu coração continua a disparar cada vez que os nosso olhares se tocam. E ainda por cima descobri que na altura ele também sentia o mesmo por mim. Ele agora está com 29 anos e tem uma namorada recente. Mas somos tão parecidos, com pensamentos profundos e ele fala de um modo tão puro e profundo como eu nunca conheci/reconheci em nenhum homem. Tal como eu ele procura um sentido para a vida, procura a felicidade, alguém que o compreenda e ame profundamente (talvez já tenha encontrado a tal pessoa, quem sabe?).
Penso muito nele. Não sei se será a curiosidade de saber o que teria acontecido se algum de nós tivesse tido a coragem de confessar a paixão que nutríamos um pelo outro.
Outra coisa que me fazia feliz era saber “o que ando cá a fazer”, qual o sentido da vida e qual a minha “missão”. Acho que isso me traria alguma paz de espírito. Ou talvez ainda me desinquietasse mais! Quem sabe?!
Falámos em religião, numa busca interior. Acho que preferia falar em filosofia. Uma filosofia de vida que me orientasse e conseguisse “apoiar” naqueles momentos menos bons. Fanatismos religiosos não me agradam particularmente, mas estou a pensar em pesquisar sobre o budismo, para ver se me consigo identificar com a sua filosofia. O yoga e a meditação sempre foram coisas que me suscitaram alguma curiosidade, quem sabe?
“O amor não consiste em olhar um para o outro, mas em olharmos juntos na mesma direcção”. (Antoine de Saint-Exupéry)
Outras das coisas que me fariam feliz seria, curiosamente escrever um livro. É um sonho que me iria fazer sentir realizada. Não tanto pela busca do “sucesso”, mas pelo prazer da partilha, de poder proporcionar prazer aos outros. Mas depois penso, um livro sobre o quê? E falta-me a imaginação!

3 Comments:

  • At Quarta-feira, Dezembro 22, 2004, Blogger José J.C. Serra said…

    Acerca do olhar, a dois, na mesma direcção - que é a essência do verdadeiro amor - veja, o quadro de Munch no Cura di Sé.

    Bem-vinda ao mundo da blogosfera.
    Boas bloguices.

     
  • At Sexta-feira, Janeiro 07, 2005, Blogger gata said…

    este texto parece que foi escrito por mim. ou poensado por mim. dividia o em duas partes, para duas épocas da minha vida.

    uma pergunta indiscreta, mas n precisas de responder a mim, só a ti. é mesmo com o M que queres estar??

     
  • At Terça-feira, Janeiro 11, 2005, Blogger su said…

    Nem sei bem, o tempo vai-se arrastando, ele é boa pessoa, mas eu acho que mereço muito mais do que ele me pode oferecer. Mas será que há alguém que me possa oferecer o que mereço?
    Beijinho

     

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